POTÁSSIO DE AUTAZES PODE REDUZIR DEPENDÊNCIA BRASILEIRA DE IMPORTAÇÕES

Projeto no Amazonas prevê produção de até 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano, mas ainda depende de engenharia, financiamento e implantação para começar a operar.

POTÁSSIO DE AUTAZES PODE REDUZIR DEPENDÊNCIA BRASILEIRA DE IMPORTAÇÕES

O Projeto Potássio Autazes, no interior do Amazonas, poderá reduzir de forma significativa a dependência brasileira de fertilizantes importados. O empreendimento prevê produzir até 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano, volume que, segundo estimativas divulgadas, poderia representar aproximadamente 17% a 20% do consumo nacional do insumo.

A diferença entre os percentuais está relacionada à referência utilizada nos cálculos. O diagnóstico mais recente citado pela reportagem do g1 aponta potencial de aproximadamente 17% do consumo brasileiro, enquanto a Potássio do Brasil trabalha com uma estimativa próxima de 20%.

Mesmo com a entrada do projeto em operação, o Brasil continuaria dependendo do mercado externo para a maior parte do potássio utilizado na agricultura.

Brasil ainda depende fortemente do potássio importado

O potássio é um dos principais nutrientes utilizados na produção agrícola e está presente em fertilizantes aplicados em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão.

Segundo dados citados na reportagem, a dependência brasileira do mercado externo chega a aproximadamente 97%. Entre 2020 e 2024, o país importou, em média, 13,14 milhões de toneladas de potássio por ano.

Os dados oficiais de comércio exterior também mostram que as importações continuam em grande escala. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou 9,76 milhões de toneladas de cloreto de potássio, de acordo com levantamento baseado no Comex Stat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

A produção nacional convencional ainda é pequena em comparação com a demanda. Em 2024, segundo dados da Agência Nacional de Mineração citados na reportagem, foram produzidas aproximadamente 398,5 mil toneladas de potássio, expressas em K₂O contido.

O que Autazes pode representar

É nesse cenário que o projeto localizado em Autazes ganha importância para o abastecimento nacional.

O empreendimento prevê a exploração subterrânea de silvinita, minério que contém cloreto de potássio. O material deverá ser retirado do subsolo e beneficiado para produção do fertilizante.

A Potássio do Brasil informa que o minério está localizado a cerca de 800 metros de profundidade na região de Autazes. A empresa trabalha com capacidade nominal de até 2,4 milhões de toneladas de KCl por ano.

O Sumário Mineral Brasileiro 2025, por outro lado, registra uma previsão de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de produto por ano, equivalentes a cerca de 1,6 milhão de toneladas de K₂O. A diferença decorre da unidade e da referência técnica utilizada.

Na prática, a produção de Autazes poderá ampliar a participação brasileira na oferta do insumo e reduzir a exposição do país às oscilações de preços, câmbio, transporte internacional e eventuais crises de abastecimento.

Projeto ainda não produz

Apesar do potencial, o projeto ainda não está produzindo potássio.

O empreendimento possui Licença de Instalação concedida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, o Ipaam, mas ainda passa por etapas de engenharia, preparação e estruturação financeira.

Em 2026, a Brazil Potash, controladora da Potássio do Brasil, contratou serviços de engenharia básica, conhecidos pela sigla FEED, que abrangem as instalações de superfície, os poços de acesso à mina e o desenvolvimento subterrâneo.

A conclusão dessa etapa está prevista para o início do segundo trimestre de 2027. O Sumário Mineral Brasileiro 2025 indica 2030 como estimativa de entrada em produção, mas essa data não é apresentada como um prazo garantido.

O cronograma depende da conclusão dos projetos de engenharia, do financiamento, da contratação de fornecedores, da execução das obras e da manutenção das condições regulatórias e judiciais.

Investimento estimado em US$ 2,5 bilhões

A Potássio do Brasil estima que serão necessários aproximadamente US$ 2,5 bilhões para a construção do empreendimento. O valor ainda poderá ser atualizado conforme o avanço da engenharia e a contratação dos principais equipamentos e serviços.

Em setembro, a empresa anunciou novas medidas relacionadas à estruturação do projeto.

Entre elas está um contrato definitivo para fornecimento de energia durante a construção. O acordo prevê uma usina modular a diesel de até 20 megawatts, que deverá atender à implantação dos poços, da planta de processamento e do terminal portuário até a conexão planejada ao Sistema Interligado Nacional.

Segundo a empresa, o contrato retira aproximadamente US$ 33 milhões dos desembolsos iniciais previstos para energia.

Transporte deve usar o sistema hidroviário

A logística também é um dos pontos centrais do projeto.

Por causa da localização de Autazes, a previsão é utilizar o transporte hidroviário para levar a produção aos principais mercados consumidores brasileiros. A solução deve envolver o sistema de rios da região e transporte por barcaças.

A estratégia busca aproveitar a estrutura fluvial amazônica para conectar a produção do município aos centros consumidores de fertilizantes no país.

Autazes não elimina a dependência externa

Mesmo que o projeto alcance a capacidade prevista, a produção de Autazes não será suficiente para tornar o Brasil autossuficiente em potássio.

A própria análise divulgada pelo g1 destaca que a maior parte do consumo nacional continuaria sendo atendida por fornecedores estrangeiros. O empreendimento representa uma possibilidade de redução da dependência, mas não sua eliminação.

Atualmente, os principais fornecedores internacionais de potássio incluem países como Canadá, Rússia e Belarus, o que deixa o mercado brasileiro exposto a questões logísticas e geopolíticas.

O cenário também é acompanhado pelo governo federal. Em setembro de 2026, foi instituído o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, o Profert, voltado à implantação, ampliação, modernização e retomada de estruturas destinadas à produção nacional de fertilizantes.

Assim, o projeto de Autazes aparece como uma das iniciativas que podem ampliar a produção brasileira, mas sua contribuição efetiva dependerá da conclusão das etapas de implantação e do início da operação comercial.